Entrevista | José Auriemo Neto, da JHSF — Programa Show Business – com Sonia Racy

October 25, 2019 - By 
José Auriemo Neto

**Publicado no canal do Youtube do programa no dia 19 de setembro de 2018.**

Sonia Racy (SR): Aos 17 anos, ele foi responsável por desenvolver, na empresa da família, a área de estacionamentos. Aos 22 anos, assumiu o cargo de diretor da divisão de shoppings centers. E, em 2006, com apenas 27 anos, ocupou a cadeira de presidente, cargo no qual permaneceu até 2014. Vamos conversar agora com José Auriemo Neto, presidente do Conselho de Administração da JHFS. Boa noite Zeco.

José Auriemo Neto (JAN): Boa noite!

SR: Aliás, já vou começar com uma curiosidade, como é que o José virou Zeco?

JAN: Eu tenho o nome do meu avô, que é José Auriemo, então, eu sou José Auriemo Neto e, na época, queriam me dar um apelido. Iam me chamar de Zeca, e aí acharam melhor não — “vamos fazer Zeco que fica mais simpático, coisa e tal”. Então, desde cedo, as pessoas me chamam de Zeco. E eu não conheci meu avô, quando eu nasci, meu avô já tinha falecido. Meu avô faleceu relativamente cedo, mas acabei tendo o nome dele.

SR: Enfim, muito simpático esse seu apelido.

JAN: Obrigado!

SR: Eu quero te agradecer pelo seu tempo para explicar para a gente: Como é que está a área de shoppings centers no Brasil, com toda essa crise?

JAN: Olha, shoppings centers eu acho que é uma indústria que foi formada no Brasil em ciclos. Tiveram alguns momentos na economia no país que os shoppings centers se expandiram, e acho que isso foi desenvolvido de maneiras profissionais, por grupos que foram de dedicando a fazer cada vez melhor essa atividade no País. Então, acho que hoje a indústria tem grupos que são grupos especializados, que conhecem bem o setor. Acho que o Brasil, hoje, tem uma plataforma de shoppings centers bastante grande, bem formada — especificamente nesses anos um pouco antes da crise dos últimos três, teve um ciclo de crescimento bastante importante.

SR: Significativo?

JAN: Exatamente!

SR: Essa crise que está arrasando o Brasil, como é que ela afetou o segmento shoppings centers? Não exatamente só a sua empresa, mas o segmento geral.

JAN: Eu acho que, dentro dos ramos que a gente atua, shoppings centers até é uma indústria um pouco mais resiliente. Quando você tem um bom shopping, feito dentro de técnicas pensadas, de mercado, ele é um produto, hoje, resiliente. O grande problema é quando tem — às vezes, até, em decorrência de uma euforia econômica — um crescimento para áreas e para locais que não são tecnicamente ajustados e, aí, quando vem a crise, esses produtos acabam sofrendo de maneira muito maior do que projetos que foram, tecnicamente, bem pensados e bem desenvolvidos. Então, como tudo, acho que localização e o produto fazem muita diferença na hora que você pensa em desenvolver um shopping.

SR: Quantos shoppings tem o Grupo?

JAN: Nós temos cinco shoppings em funcionamento, e nosso foco sempre é em projetos especiais. A gente não é uma empresa que foca, primeiramente, em quantidade. A gente é focado no segmento de alta renda — como o Cidade Jardim, em São Paulo, por exemplo, que é um projeto que começou com 130, 140 lojas, e com 25 mil metros de área locável e, hoje, tem 40 mil metros de área locável. Então, ele foi, ao longo do tempo, crescendo. Temos o Catarina [Catarina Fashion Outlet], por exemplo, que é uma modalidade outlet de um shopping de luxo que nós inauguramos mais recentemente. É um shopping que também começou com 20 mil metros de área locável, [hoje] estamos em 30.

SR: O shopping Catarina já para uma renda um pouco menor, ou não?

JAN: Não, o shopping Catarina é um modelo americano, de outlet center — então, nós temos grifes importantes lá. Recentemente, nós abrimos uma terceira expansão, então, temos a Gucci, temos Dolce & Gabbana, temos [Ermenegildo] Zegna, temos [Salvatore] Ferragamo. São várias grifes que nós temos também, algumas delas, no Cidade Jardim — e eles têm a versão outlet que é um modelo de negócio que é bastante conhecido e bastante expandido nos Estados Unidos. A gente é pioneiro no Brasil, desenvolvemos, nesse caso, o Catarina que é o maior outlet do Brasil.

SR: Vocês são focados em produtos, então, classe A?

JAN: Nós somos focados em produtos classe A, esse é o foco da empresa.

SR: Vocês têm outros produtos, além de shoppings, né?

JAN: Nós temos a área que a gente chama de Incorporação Imobiliária Residencial. A JHSF, se você pegar 10, 12 anos atrás, ela tinha até uma receita predominantemente vinda da área de venda de apartamento residencial. Isso, ao longo dos anos, foi mudando. Hoje, a gente tem mais ou menos 70%, 80% do nosso resultado já vindo da área de renda recorrente que é como a gente chama, que é o negócio de shoppings centers. O negócio residencial continua existindo, mas dentro de uma proporção que foi, ao longo desses anos, sendo reduzida. E somos sócios, também, do Fasano [Hotéis Fasano], ainda dentro do foco classe A. Então, a gente procura, dentro desse segmento mais de alta renda, conhecer bem o cliente, saber quais são os hábitos e, de alguma maneira, tentar ter produtos atrativos para ele.                                

SR: Zeco, se você pudesse resumir, de uma maneira simples, qual foi o comportamento da classe A nesta crise dos últimos anos, pela qual o Brasil vem passando?

JAN: Eu acho que toda a crise traz mudanças de hábitos, e eu acho que a classe A mudou. O Brasil, hoje, tem uma classe A com certeza mais inteligente, mais esperta, como diz aí o americano, mais antenada do que tinha no passado. Isso se reflete em tudo — desde os nossos shoppings, onde a gente tem que ter foco em produtos caros, mas, também, produtos descolados, que são produtos que as pessoas podem usar em momentos diferentes; e que complementam as grandes grifes. No caso de apartamentos, residências de final de semana, eu acho que tem um processo de produtos mais fáceis de administrar — às vezes, casas ou apartamentos que eram de tamanhos muitos grandes, que exigiam muitos funcionários [não são tão requisitados]. Hoje em dia, as pessoas procuram produtos mais fáceis, com mais serviços. E, nisto, o hotel nos ajudou muito. Até na própria Fazenda Boa Vista, que é um empreendimento de campo importante nosso, nós temos lá um Hotel Fasano — uma coisa que no passado podia ser: “Ah vou fazer uma casa com muitos quartos para ter os meus convidados”. Hoje em dia, as pessoas podem levar menos convidados para as próprias casas, os próprios amigos têm outras casas.

SR: Adequando custos, né, gastos?

JAN: Adequando gastos e, principalmente, de maneira inteligente. O que não quer dizer que a pessoa tenha ou não tenha para gastar. Mas, eu acho que existe, hoje, uma consciência de que o dinheiro tem que ser bem cuidado, tem que ser bem investido. E a gente vê, com o próprio Hotel Fasano na [Fazenda] Boa Vista que a pessoa pode muito bem ter uma casa e, quando tem um convidado, [dizer]: “Olha, vou te hospedar no Hotel Fasano da Boa Vista”. E o Hotel tem um atendimento e uma qualidade da mesma altura da casa. Então, isso eu acho que é uma mudança de hábito que acaba acontecendo.

SR: Me veio uma curiosidade, aqui, na cabeça. Essa escalada do dólar, ela deve ter dois efeitos diferentes em shoppings, em compras. Nas importações, as importações ficam mais caras. Então, provavelmente, as grifes estrangeiras devem sofrer mais nas suas lojas — ao mesmo tempo, incentiva o consumo de produtos locais. Explica para a gente como é que está esse balanço.

JAN: A gente até brinca que o nosso concorrente, entre aspas, é o cliente ir comprar fora, porque, realmente, o efeito do imposto nas mercadorias é muito grande no Brasil. E a gente até fala que não faz muito sentido. Você vai pegar um cliente brasileiro que vai para Miami — a gente, às vezes, conversa com shoppings ou com lojas, você chega a ter 50%, 60% das vendas de um Mall Harbor (correto o nome?), que é um shopping de Miami, sendo feita para o brasileiro. A gente brinca, lá no escritório, que a gente está exportando PIB [Produto Interno Bruto], porque a pessoa gera não só o gasto fora como, também, empregos e etc.. Então, quando você tem o dólar mais alto, você diminui a viagem, que gera um efeito positivo. E acho que as empresas, como também conhecem o público brasileiro, elas compensam o imposto com a possibilidade de parcelar.

SR: Isso nas vendas de marcas estrangeiras. Mas, e as locais, elas não vendem mais porque as marcas estrangeiras acabam ficando mais caras?

JAN: Acaba acontecendo, inclusive, porque tem menos viagem, e uma época de dólar caro pode ter esse efeito. Agora, o ponto é que as empresas têm que se ajustar, porque o dólar sobe, o dólar cai e, normalmente, a gente tem falado, ninguém se dimensiona por conta disso. O que a gente vê é que realmente existe essa tendência, hoje, de as pessoas, por outro lado, viajarem um pouco mais — talvez, pela mobilidade, pelo ipad, pelo telefone. Mesmo que você tenha uma restrição cambial, eu acho que o hábito das pessoas, de alguma maneira, também está levando para um sentido um pouco contrário.

SR: Mas, as marcas brasileiras não acabam sendo privilegiadas de alguma maneira? Vamos dizer que, em vezes de você comprar um tênis importado, você compra um tênis nacional. Você sente algum movimento desse tipo ou o parcelamento evita isso?

JAN: O parcelamento atenua. Mas, eu acho que o que tem acontecido é que algumas marcas brasileiras têm, também, trabalhado muito bem, e elas têm competido de maneira muito importante e relevante com os importados, do ponto de vista de qualidade. Isso tem sido cada vez mais comum e é uma coisa muito boa, porque você vê pessoas que são referência de moda ou de estilo, que usam um produto importado de uma grife conhecida; e usam, também, um produto nacional, de uma grife conhecida, de maneira muito equivalente.

SR: Isso é uma evolução da marca brasileira, né?

JAN: E têm alguns brasileiros fazendo história também fora.

SR: Internacionalização! As redes devem ajudar de alguma maneira nesse sentido, né?

JAN: E eu acho que essa cabeça, a gente vê, de alguns parceiros nossos de shopping. O Alexandre Birman é uma empresa que está internacionalizando, e tendo um sucesso de história bonita afora. Então, a gente acha que essas barreiras, hoje, elas são barreiras mais psicológicas do que concretas — e quem tem acreditado, tem conseguido, dentro desse universo de shoppings e de moda, ter [sucesso].

SR: Zeco, vamos falar sobre luxo. O que é luxo, hoje em dia?

JAN: Eu acho que luxo é a pessoa poder ter a sua naturalidade. Para mim, é a pessoa poder ter os seus hábitos, ter os seus amigos, poder equilibrar, vamos dizer, a vida de uma maneira que seja saudável — tenha tempo para fazer o trabalho, tenha tempo para fazer o esporte, tenha tempo para se dedicar aos filhos. Esse assunto de filhos é muito importante.

SR: Luxo é tempo, então?

JAN: É tempo, e a pessoa poder ter a tranquilidade de desenhar o equilíbrio entre as coisas importantes para ela na vida, de forma que ela consiga aproveitar esse equilíbrio.

SR: Nessa área, vamos dizer, de moda, de gastronomia, você tem vários produtos de luxo — o shopping Cidade Jardim é um produto de luxo, a Fazenda Boa Vista é um produto de luxo, o Hotel Fasano é um produto de luxo. O luxo, ele pode ser medido em coisas palpáveis ou, como você estava explicando ali, o luxo é mais uma maneira de viver?

JAN: Eu acredito muito que o luxo muito é uma maneira — e eu acho que, sobretudo, equilibrada e com limites. A boa equação, ela vem, justamente, até de ter limites. Não é porque uma pessoa tem dinheiro, ou porque uma pessoa vive no luxo, que ela deixou de ter que respeitar alguns limites.

SR: Isso mudou nos últimos 20 anos?

JAN: Eu acho que sim. Eu acho que esse estabelecimento de limites acaba sendo um processo, hoje, mais inteligente. A gente vê que o luxo, aliado e atrelado à qualidade, ele sempre vai existir de maneira consistente e forte. Quando ele começa a entrar no campo dos exageros, talvez ele seja esse luxo que, hoje em dia, a gente chama de um luxo mais inteligente, que é onde as pessoas mais jovens vão reescrevendo (ficou parecendo contraditório, mas foi isso que foi dito).

SR: Você trabalha nesse setor já há alguns anos. Você notou a diferença do consumidor brasileiro de alta renda nessa área? Ele tem sido mais seletivo? Como é que ele se comporta? Faz uma comparação dele com 15 anos atrás.

JAN: Isso é difícil de dizer — se é um movimento do cliente, do consumidor, ou se é até das próprias empresas. Hoje, são grandes empresas que, vamos dizer, que são os protagonistas da moda. Eu acho que é uma simbiose, no sentido de que as empresas, de alguma maneira, vão fazendo produtos mais diferentes; e o cliente vai, também de alguma maneira, guiando. Eu acho que a indústria que chamam de luxo, ela é uma indústria grande, hoje, no mundo — ela é uma indústria que vai desde os produtos de moda, até os serviços de hotelaria, carros. E eu acho que a essência é você conseguir fazer um produto de qualidade por um preço justo, por um preço adequado. Não é porque você está na indústria de luxo que você pode estar descolado de uma relação de custo/benefício.

SR: Por falar em luxo, eu soube que vocês estão lançando um empreendimento em Nova York. Conta um pouquinho, pode revelar?

JAN: Nós estamos terminando um prédio residencial. A gente tem um projeto na Quinta Avenida, entre a 62 e a 63, de frente para o parque, em Manhattan. É um projeto que nós começamos alguns anos atrás e fica pronto agora, em setembro, outubro [2018]. Então, a gente está feliz, foi um passo importante.

SR: É o primeiro empreendimento de vocês fora do Brasil?

JAN: Nós já fizemos alguns projetos fora, desde anos atrás. Fizemos um projeto em Miami; fizemos o próprio Punta Del Este, que fez parte da expansão internacional da JHSF, o Hotel Fasano de Punta, com empreendimento imobiliário; em Nova York, também já tivemos outros investimentos. Então, a gente tem, hoje, uma unidade de negócio chamada JHSF Internacional, que tem investimentos fora.

SR: Com esse cenário do Brasil, o que vai crescer mais — a JHSF Internacional ou a JHSF Brasil?

JAN: As oportunidades de crescimento a gente enxerga, por incrível que pareça, mais dentro do Brasil, até, do que fora. O mercado de fora é um mercado que, talvez, não te proporcione tantas oportunidades. A gente também tem um pouco de critério de estar sempre em projetos seletivos, projetos especiais. Eu acho que o Brasil ainda é um país que traz essas oportunidades. Se pegar a proporção de investimentos no Brasil e fora, eu acredito que a proporção de investimentos dentro é maior.

SR: Em termos de financiamento, é mais fácil se financiar lá fora ou aqui?

JAN: Muito mais fácil financiar fora, muito mais fácil.

SR: Muita gente indo por conta disso, né?

JAN: É, e se a pergunta fosse ao contrário, sobre as condições de empreender no Brasil ou as condições de empreender fora — fazendo uma brincadeira, um trocadilho com você — eu acho que as condições de empreender fora, elas são realmente, hoje, mais equilibradas.

SR: E por quê, então, vocês não dão uma guinada?

JAN: A gente tem feito de maneira condizente com o envolvimento que a gente tem no Brasil. Eu sou brasileiro, eu gosto, a gente tem uma visão e, talvez, um carinho, uma plataforma de negócios no Brasil, que faz esse movimento ser um movimento equilibrado. Eu acho que as empresas, cada uma dentro da sua dimensão, do seu negócio, da sua proporção, têm procurado também olhar fora. Isso eu acho que é um ponto que o Brasil, talvez, não se atente. Fica, às vezes, dentro de problemas e projetos internos muito complexos e, de certa maneira, esquece que, hoje, qualquer investidor pode investir no Brasil ou fora; que qualquer empreendedor, ou qualquer companhia, também pode ter um plano de Brasil e um plano fora. E isso, de alguma maneira, é concorrente. Então, acho que a gente tem desafios estruturais que precisam ser levados em conta pelos nossos próximos governantes.

SR: O que você acha da situação, aqui, no Brasil?

JAN: Eu acho que o Brasil sempre foi um país de boas oportunidades e continua sendo. Um país com desafios para os políticos e para as pessoas que decidem se dedicar a esse tema — o que a gente vê, hoje, é uma quantidade até de pessoas jovens e brasileiros que gostam e que estão envolvidos, no País, entrando no processo de política, e isso eu acho que é muito positivo, é muito bom. Eu acho que a tensão, no fim, é essa, porque existe uma concorrência tanto pelo capital quanto pelo empreendedorismo. E os países, hoje, são abertos. A pessoa pode ir morar no país A, no país B — Portugal, por exemplo, fez um projeto de visto para levar cliente, para levar consumidor para a sua plataforma de negócio. A gente fica aqui, tem uma estrutura no Brasil instalada, e a gente fala: “Eu não quero ver meu cliente indo embora, morar no país A, no B ou no C”. Então, eu acho que, dentre as pautas dos governantes, deveria, de alguma maneira, haver o foco nas pessoas, no país, no emprego — e, para isso, manter os empreendedores brasileiros empreendendo no País deveria ser parte importante.

SR: Eu ouço essa reclamação há muitos anos. Tem gente que cobra uma política industrial, uma política comercial, enfim. Há muitos anos, eu ouço reclamações da iniciativa privada do pouco caso que o governo tem com o setor — que, na realidade, ante o país que quebrou, é quem vai reconstruí-lo nos próximos anos, porque é da onde vai sair todo o investimento. O governo federal, estadual, municipal, não tem condições financeiras de fazer isso. Por que o empresariado brasileiro nunca conseguiu ser ouvido? Por que ele nunca conseguiu uma influência maior sobre o governo?

JAN: É difícil, assim, analisar os ciclos e, até, o passado. Quando tem, lá no escritório, essa discussão, todo mundo reclama, mas, também, não sei se é correto e justo reclamar demais do País. Foi um País que, de alguma maneira, proporcionou oportunidades — sempre com desafios, com problemas, com efeitos colaterais que a gente sabe, aí, todos quais são. Então, sei lá, pelo menos, a nossa postura interna tem sido: “Vamos olhar para frente”. É incrível, mesmo com os desafios todos que o Brasil tem, existem tanto empresários que falam: “Eu quero continuar tendo condições, investindo”; e você tem pessoas que são jovens e bem formados — para essa eleição tem uma série de novos candidatos…

SR: Exatamente nesse nicho que eu queria entrar. Você acha que a iniciativa privada acordou, finalmente, [em relação ao fato] de que se não participar da política como um todo — fisicamente, se elegendo, disputando cargo de deputado, vereador, enfim, até de presidente da república ou o que for — esse país não vai mudar?

JAN: Eu acho que é verdade isso. E eu acho que essa geração tem uma consciência importante a esse respeito; tem iniciativas que são iniciativas importantes que foram criadas, e eu acho que esses projetos têm que ser apoiados. O Brasil tem aquela coisa, todo mundo pode reclamar, mas, também, de certa maneira, a agenda do que precisa ser feito para terem avanços claros e importantes, ela é uma agenda conhecida. Então, obviamente, tudo, hoje, dá muito trabalho.

SR: Hoje, você é presidente do Conselho. Talvez, você tivesse liberdade de disputar um cargo, de trabalhar na administração executiva, no Executivo. Você teria vontade de fazer isso?

JAN: Eu não tenho vontade e acho que não tenho perfil. Porque, para qualquer cargo público, têm pessoas que têm perfis muito mais adequados. E eu acredito muito nisso, cada um tem que ficar dentro daquilo que pelo menos acha que faz bem, que faz melhor.

SR: Zeco, estávamos conversando sobre o perfil de alguém que trabalha, hoje, na iniciativa privada para ter condições de ir para a política. Qual seria esse perfil desta pessoa? Você já disse que você não é.

JAN: Não, com certeza. Eu admiro muito as pessoas que têm se dedicado para esse fim. Então, têm iniciativas como o Renova Brasil — uma iniciativa inacreditável, incrível.

SR: Capitaneada pelo Eduardo Mufarej.

JAN: Eduardo Mufarej que é uma pessoa que tem uma trajetória empresarial espetacular e, hoje, dedicou-se a formar um grupo de pessoas que estão entendendo os assuntos e os desafios do Brasil.

SR: Que querem ir para a política, né?

JAN: É, o Renova, até onde eu conheço, não é um movimento político, não é um partido.

SR: Não é um partido, as pessoas podem escolher. Vou explicar, aqui, só para o telespectador entender. O Renova é um movimento de formação de gente com vontade de entrar para a política. Existe uma seleção, eles participam de um curso e, no final deste curso, eles escolhem por qual partido eles vão disputar as eleições. Esse ano [2018] serão 130 escolhidos, cada um em um partido. É isso?

JAN: É, e com uma formação. Estão fazendo um trabalho espetacular neste sentido.

SR: Hoje em dia, a política é tida como uma coisa muito ruim, as pessoas estão cansadas, nos últimos três anos, de [Operação] Lava Jato, enfim, todos esses escândalos. Essas pessoas com vontade de entrar na política, elas têm que ser corajosas, né? Porquê, na hora, tem essa preocupação de não se contaminar com o que está aí. E houve uma real renovação. Você acredita que o Brasil vai passar por essa renovação, nessa eleição [2018]?

JAN: Se pegar por um extremo oposto que, também, qualquer político que tem no Brasil não é um bom político, eu não acredito nisso. Eu acho que o país, mesmo sem considerar os movimentos novos, tem muitos bons políticos.

SR: Isso eu também acho. Agora, a percepção da população é essa. É isso que eu estou te dizendo.

JAN: Outro dia eu ouvi um investidor internacional dizendo que o nível de gestão de alguns países desenvolvidos no mundo subiu muito. Eu acho que essa é a consciência que a gente precisa ter como grupo — não é específico de um partido ou específico de alguma pessoa. É como as empresas: se o nível de gestão, de qualidade de execução e ataque das prioridades subiu, o país tem que, de alguma maneira, entender que isso é uma realidade e que, se a gente não se organizar, a nossa posição de competitividade relativa aos outros países — de atratividade, de emprego, de crescimento, etc. — vai ficar para trás. Então, eu acho que isso também não é uma questão só das pessoas. É uma questão de conscientização de que a gente precisa melhorar, de maneira coletiva, em determinados índices, nos quais tem outros países que andaram melhor que gente. O que não quer dizer que o Brasil não tenha ótimas oportunidades, ótimos negócios, um ambiente de investimento saudável — eu acredito que isso tudo existe no Brasil e, por isso, também, que várias empresas internacionais estão aqui.

SR: O que você espera do novo presidente que vai ser eleito [em 2018]?

JAN: Eu espero que tenha essa visão de união, e que consiga criar um fator que motive as empresas e as pessoas, que traga uma perspectiva de melhora para o País depois desses anos de crise. Eu acho que faz parte o País, em um momento como esse, se unir, e acho que um presidente novo vai ter uma função importante nesse aspecto.

SR: Na projeção da JHSF, na programação, na perspectiva da JHSF, como é que vocês montaram a atuação do Grupo para os próximos, vamos dizer, cinco anos?

JAN: Até, andando um pouquinho para trás, a JHSF migrou de uma empresa na qual tinha um percentual grande vindo da área de venda de imóveis para essa área que a gente chama de renda recorrente. A gente teve uma adequação de proporções de receitas e de estrutura de capital decorrente disso. Nos próximos anos, a nossa perspectiva de crescimento para a área de shoppings é grande, principalmente nas expansões de projetos existentes — como o próprio Cidade Jardim; o Catarina, que é o nosso outlet e, hoje, já é um outlet bem grande, mas, ele tem uma perspectiva de crescimento, em que ele praticamente dobra ainda de tamanho. Os nossos shoppings de Salvador e Manaus têm perspectivas de crescimento. Nós estamos lançando uma plataforma, agora em setembro [de 2018], de e-commerce — um projeto importante dentro da área de negócios nossa.

SR: Explica um pouquinho sobre isso.

JAN: E-commerce é uma plataforma que tem uma integração digital dos estoques dos nossos lojistas. É uma plataforma online, que a pessoa vai poder entrar, acessar, comprar, e ter o delivery, de uma maneira bastante rápida, dos produtos que a gente tem no shopping Cidade Jardim, funcionando no Brasil inteiro. Então, qualquer cliente que esteja em qualquer capital do Brasil vai poder acessar, via online, os produtos do shopping Cidade Jardim.

SR: Então, no lugar das lojas, das unidades fazerem isso sozinhas, vocês vão fazer uma coisa em conjunto? Vai ser um bloco Cidade Jardim?

JAN: Vai ser um Marketplace — no termo, hoje, utilizado aí pela indústria — onde ele tem algumas particularidades que torna a ferramenta bastante forte, principalmente por essa integração online dos nossos lojistas.

SR: Zeco, para que vai servir a loja física, se as pessoas, cada vez mais, estão comprando via e-commerce?

JAN: Olha, essa equação é muito difícil analisar. Porque eu fiquei algum tempo morando nos Estados Unidos e, quando você conversa com o pessoal das plataformas online, você vê a pessoa falando assim: “Poxa, eu preciso, também, ter uma plataforma física, porque se eu ficar aqui, só na online, é capaz de eu ‘morrer’ aqui, ao longo dos próximos anos”. É muito engraçado, porque quem tem a física fala: “Poxa, se eu não estiver na online, eu estou, aqui, com uma estratégia de negócios comprometida”; e, muitas vezes, você está lá, falando com o online, e ele fala: “`Poxa, eu, aqui, tenho certeza que eu preciso ter a plataforma física”. E foi um movimento muito visto, até nos Estados Unidos.

SR: Você acha que as lojas vão se tornar cenários? Você passa, gosta de alguma coisa, e aí vai para casa e compra no e-commerce.

JAN: Eu não tenho dúvida de que as coisas vão se juntar. A gente tem um projeto lá no Jardins, por exemplo, que a gente chama de Cidade Jardim Shops — ali, colado ao Hotel Fasano, em São Paulo — e ele tem um ingrediente de online bastante importante. Quer dizer, algumas lojas que, presencialmente, não vão estar no empreendimento, até pelo tamanho, a gente vai ter uma possibilidade de a compra ser online, dentro dessa plataforma de Cidade Jardim. Então, eu acho que essa junção é uma realidade. E a gente vê muitas empresas, também, de comércio digital comprando plataformas físicas, como foi o caso do Whole Foods, nos Estados Unidos, comprado pela Amazon.

SR: Aqui no Brasil, tem alguém que era só online e que virou físico? Você lembra?       

JAN: Ah, tem! O próprio Cidade Jardim tem uma loja chamada Gallerist, espetacular, de produtos de moda brasileira. A Gallerist, o início foi uma plataforma online e, hoje, tem uma plataforma física e que equilibra. Eu nunca perguntei se a receita é maior do físico ou do online, mas é um exemplo muito bem-sucedido neste sentido.

SR: Esse futuro — tem como prever ele? É como você falou, vai haver uma junção do e-commerce com a loja física e isso vai se acomodando, mas, as pessoas precisam se planejar, né? Existe como se planejar?

JAN: Acho que existe. Hoje, até nas próprias universidades você tem várias iniciativas de pessoas que se dedicam para entender qual é a tendência. E eu tenho procurado aprender, porque é uma coisa nova para todo mundo. Então, quando você faz a pergunta, eu falo: “Poxa, acho que é um alerta, aqui, para a gente falar ‘temos que estar atentos e temos que aprender com as pessoas que estão estudando isso e estão à frente’”. Eu acho que todo mundo precisa dedicar, hoje, um pedaço do seu tempo para esse assunto e para esse tema, porque as coisas estão mudando muito rápido.

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